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Liquidez Corrente e Capital de Giro

Publicado em 26 de outubro de 2011 por jmelo 6

Liquidez Corrente e Capital de Giro

Vou entrar nesse post em um nível de detalhamento maior sobre esse assunto, e dependendo do seu nível de conhecimento pode ser tornar um pouco complexo o entendimento, mas recomendo a leitura a todos que queiram se aprofundar um pouco mais em avaliação de empresas.

O que seguimos como investidores de valor são algumas premissas baseadas em múltiplos para então analisarmos mais a fundo a empresa. Um dos múltiplos que sempre recomendamos é trabalhar com uma Liquidez Corrente de no mínimo 1,5. Quem acompanha o trabalho desse blog já sabe disso. Por que essa recomendação? porque para a maioria dos investidores procurar empresas com alta liquidez pode livra-lo de cair em empresas com problemas financeiros.

Porém se quisermos dar uma passo a mais e aprofundarmos no estudo da saúde financeira da empresa a pergunta que temos que fazer é: Essa liquidez corrente é realmente suficiente para cobrir as despesas da empresa?

Pode parecer surpreendente mas muitas vezes uma empresa com Liquidez Corrente de 3 ou mais pode estar a beira da falência, e esse indicador pode nos dar uma falsa impressão de conforto. Para aprofundarmos nesse estudo a primeira coisa é entender o que é a Liquidez Corrente:

LC = Ativo Circulante / Passivo Circulante

Ou seja, o índice nos da a idéia de quanto a empresa tem de ativos no curto prazo para pagar suas contas com folga. Mas ai devemos fazer outra pergunta: Minha liquidez corrente é suficiente para minha necessidade de capital de giro?

Nesse ponto entra a grande questão, pois uma empresa pode ter uma liquidez corrente alta, mas uma necessidade de capital de giro mais alta ainda.

Para entrarmos nesse conceito vamos antes entender alguns pontos:

Capital de Giro (CG): É o dinheiro disponível para pagar as contas com fornecedores. A fórmula é:

CG = Ativo Circulante – Passivo Circulante

Necessidade  de Capital de Giro (NCG): É o dinheiro necessário para pagar os fornecedores de acordo com o ciclo de caixa. A fórmula é:

NGC = Ativo Circulante Cíclico – Passivo Circulante Cíclico

O francês Michael Fleuriet criou um modelo dinâmico de análise econômico financeira das empresas, conhecido como Modelo Fleuriet.  Ele dividiu o ativo circulante e passivo circulante em:

Ativo Circulante Cíclicos – ACC : são os recursos aplicados que estão intimamente ligados às atividades da empresa (duplicatas a receber, estoques, adiantamento a fornecedores, despesas antecipadas e mercadorias em trânsito).
Ativo Circulante Financeiro – ACF, são os recursos aplicados no Ativo Circulante que não guardam relação com a atividade operacional da empresa (caixa, bancos e aplicações financeiras de liquidez imediata).
Passivo Circulante Cíclico – PCC, são os recursos obtidos que guardam relação com a atividade da empresa e que não são onerosos (fornecedores, adiantamento de clientes, salários a pagar, encargos sociais a pagar, impostos a pagar – quando não vencidos – e IRRF).
Passivo Circulante Financeiro – PCF, são os recursos obtidos de fontes onerosas (duplicatas descontadas, financiamentos e empréstimos bancários, provisão para imposto de renda e contribuição social).
Vejamos um exemplo de uma empresa:

Ativo Circulante: 300,
sendo:
Ativo Financeiro: 20
Ativo Circulante Ciclico: 280

Passivo Circulante: 100
sendo:
Passivo Financeiro:  70
Passivo Circulante Ciclico: 30

Se diminuirmos CG – NGC, temos então o Saldo em Tesouraria (ST), e é esse saldo em tesouraria que nos da a idéia da capacidade da empresa se ela tem como honrar seus compromissos ou não. Por exemplo, se temos uma empresa com CG de 200 e NGC de 250 temos pela fórmula:

ST = CG – NGC = 200 – 250 = -50

Observe que a empresa ela possui uma liquidez corrente de 3, mas seu saldo em tesouraria é negativo o que pode gerar um problema muito sério de liquidez.

A grande questão nesse ponto é identificar qual o prazo médio de recebimento das vendas e pagamento dos fornecedores. Isso é o que faz toda a diferença. Imagine que um determinado produto é vendido para pagamento em 30 dias pelo cliente, mas você tem que pagá-lo a vista, com isso você deverá ter um capital de giro maior ou igual a sua necessidade de capital de giro, para ter um saldo suficiente em tesouraria para conseguir pagar suas contas. Por isso muitas vezes as empresas tem uma Liquidez Corrente alta, não por elas serem boazinhas, mas porque o negócio as obrigado a isso.

Agora uma situação inversa, supondo que você receba do cliente a vista e pague o fornecedor em 30 dias, com isso sua necessidade de capital de giro pode até ser negativa, assim como seu saldo em tesouraria, pois você não precisa financiar nada, você está sendo financiado pelo fornecedor. Essa situação é muito comum em empresas que tem uma receita estável de recebimento como por exemplo do setor elétrico. Portanto, uma empresa do setor elétrico com Liquidez Corrente menor que 1 nem sempre quer dizer que ela esteja em apuros, pois ela pode se dar ao luxo de ter um NGC negativo pois recebe a vista dos clientes e paga a prazo aos fornecedores.

Veja o exemplo:

Ativo Circulante: 100,
sendo:
Ativo Financeiro: 70
Ativo Circulante Ciclico: 30

Passivo Circulante: 110
sendo:
Passivo Financeiro:  70
Passivo Circulante Ciclico: 40

Liquidez Corrente: 0,90
CG: -10
NCG: -10

ST: -10 – (-10) = 0

Observe que nosso saldo no exemplo da tesouraria é 0, ou seja não estamos com nenhum problema de liquidez, apesar de termos uma liquidez corrente menor de 1. Isso exatamente por causa do prazo de recebimento dela, que é menor do que o de pagamento dos fornecedores, o que lhe proporciona esse conforto.

Portanto, nem sempre uma empresa com LC menor que 1 é ruim, devemos estudar sempre o CG e NGC da empresa para podermos obter mais informações sobre o ciclo do negócio e então tirar conclusões.

Comentários (6)
  1. Cesar disse:

    Parabens pelo excelente artigo, melhor que muitos livros que tentam tratar do assunto. Se entendi bem, para o caso da empresa que voce utilizou como exmplo, uma tesouraria com R$ 0,00 exigiria um indice de liquidez >1, correto? Caso a tesouraria fosse R$ -200,00 entao o índice de liqudiez desejado seria 1,2 entendi certo ou nao tem nada haver

    05, dezembro, 2012 em 10:35 Responder
    • jmelo disse:

      Olá Cesar,

      Obrigado pelos elogios. Na verdade não tem a ver. Observe que no exemplo a empresa tem um ST de 0 e a liquidez corrente menor que 1 (0,9) e mesmo assim não tem problemas de liquidez. O que precisa ser analisado em cada caso é o ciclo do negócio para saber se existe um conforto no prazo de recebimento e pagamento dos fornecedores para que a empresa possa ter uma liquidez menor que 1 ou até um ST zerado.

      06, dezembro, 2012 em 03:54 Responder
  2. FRANCISCO DE ASSIS LOPES disse:

    Assunto bem esclarecido de maneira bem didática. Tudo se resume no ST e no CICLO OPERACIONAL da empresa, ou seja no PMR das vendas e PMP das compras. A Liquidez Corrente (LC), isoladamente, não oferece sustentabilidade em uma decisão gerencial.

    27, dezembro, 2012 em 06:05 Responder
  3. Rodrigo Wainberg disse:

    Pelo que eu entendi , a empresa com capital de giro negativo só poderia ter uma condição de liquidez boa caso garanta que o caixa no vencimento individual das obrigações de curto prazo seja maior do que as mesmas.? Isso implicaria que há uma certa regularidade nas receitas de forma a sempre ter o “dinheiro em mãos” nas datas de pagamento(financiamento pelo consumidor). Ou seja, há uma dependência única com o ciclo operacional.

    abraços!

    02, agosto, 2013 em 03:20 Responder
    • jmelo disse:

      Rodrigo, isso mesmo.

      02, agosto, 2013 em 03:34 Responder
  4. kina helena disse:

    me ajudaram muito e ja tenho facilidade de fazer face o diagnostico de uma empresa.

    13, setembro, 2013 em 01:47 Responder

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